6 razões para Walt Disney estar nos museus!

Walt Disney Mickey

Descobre num fascinante artigo, o porquê das obras de Walt Disney merecerem estar num museu em vez de apenas aparecerem nas lojas de DVD´s.

Artigo para verdadeiros fãs de animação.

O crítico de arte Paul Richard acha uma injustiça que a obra de Walt Disney não esteja representada nos museus.O homem que influenciou a arte pop e pôs a animação nas nossas cabeças merece mais do que estar numa loja de DVD.

A nível da História da Arte, há algo que me tem andado a perturbar.
Ao longo das paredes altas dos museus de arte de Washington pode ver-se um vasto e permanente panorama semioficial do século XX, e tem uma falha. Falta alguém que devia estar lá. Deixaram de fora Walt Disney.

Agora que já passou, e a cada dia fica mais longínquo, e paulatinamente se torna apenas mais um episódio da História da Arte, como poderemos olhar para trás para o século passado e afirmar que o vemos como um todo completo e coerente, mas depois omitimos totalmente o efeito que os desenhos de Disney tiveram nas artes visuais? Vá lá, isto não pode ficar assim.

Apesar de serem feitos à mão, como os desenhos sempre foram, os de Disney eram elaborados dentro de um sistema de estúdio como uma fábrica que ele próprio delineou. Qualquer pessoa que tenha crescido nos Estados Unidos, ou mesmo em qualquer outro local do mundo, conhece o aspecto desses desenhos. São activos, equilibrados e jovens. E são actores. São saudáveis, sinistros, fantásticos, folclóricos e assustadoramente contagiantes. Colocaram no século XX todo um novo modo de representação visual que não existia quando o século começou mas que já estava espalhado por todo o lado quando terminou.
Walter Elias Disney (1901-1966) cresceu no centro do Estados Unidos, nas suas quintas e cidades e pequenas aldeias com ruas de terra, um miúdo magrinho e estranhamente dotado que desenhava livros para os amigos. A sua arte parece americana, mas não totalmente: Disney tinha recebido uma grande injecção de Europa enquanto conduzia ambulâncias em França durante a Primeira Guerra Mundial. Após ter visto “Parri”, o jovem Walt já não regressou às quintas. Em vez disso, descobriu o seu caminho para Hollywood, onde, começando em 1928 com a curta-metragem Steamboat Willie, veio depois a criar Branca de Neve, Pinóquio, Fantasia – obras assombrosas.

O mundo académico aclamou-o, em dois dias consecutivos de 1938 as universidades de Harvard e Yale concederam-lhe doutoramentos honoris causa, mas actualmente se formos aos museus de arte não o encontraremos, estão lá apenas os seus reflexos.

Há um Rato Mickey no Museu e Jardim de Escultura de Hirshhorn e outro na National Gallery of Art em Washington. O do Hirshhorn é um Rato Geométrico (1971), um cartoon-construtivista com orelhas redondas, olhos quadrados, em aço e alumínio, da autoria de Claus Oldenburg. O da National Gallery é Look Mickey, um quadro a óleo de Roy Lichtenstein de 1961, no qual Mickey está a pescar na companhia do Pato Donald. Estas obras não são de Disney; estão nos museus apenas porque a arte pop não pode ser concebida sem ele. Aliás, tal como os próprios artistas pop o reconhecem sem qualquer problema: Lichtenstein doou Look Mickey ao Estado. Andy Warhol multiplicou o rato e espalhou pós dourados sobre o seu Double Mickey (1981), uma serigrafia que arrecadou 86 mil euros num leilão da Sotheby’s em 2002.

A exclusão de Disney não é uma conspiração organizada. Muito do que ele fez, especialmente nos seus últimos tempos, parece mecanizado, não tanto o trabalho de um artista, mas mais os produtos de uma marca. Não era nenhum Winslow Homer. A dependência das piadas também funcionou contra si. Organizadas em filas de estantes no seu estúdio da Califórnia estavam guardadas 1,5 milhões de piadas, divididas em 124 categorias, e os museus tradicionais são instituições sérias e sombrias que não apreciam muito as brincadeiras. E nem mesmo os seus melhores trabalhos são facilmente coleccionáveis. O que é que você compraria: os seus esboços esquecidos, os fotogramas individuais que outros artistas pintaram, bobinas de filme, DVD, um relógio?

Mas, mesmo assim…
Ele merece mais do que uma loja de DVD. Deveria estar em museus, e por muitas e variadas razões. Seguem-se seis dessas razões:

1. Walt Disney pôs os desenhos a dançar
Este não é um feito qualquer. Na Idade do Gelo, os artistas rupestres davam aos cavalos que desenhavam nas paredes das grutas pernas extras para indicar que eles estariam a galopar; em Roma e na Grécia Antiga, os deuses eram representados em poses inclinadas e com roupagens esvoaçantes para sugerir os seus movimentos divinos. Disney fez mais do que sugerir. Leonardo da Vinci teria ficado em êxtase se os seus remoinhos realmente rodopiassem.
Artistas pioneiros, como George Méliès em França ou Winsor McCay nos Estados Unidos, exploraram as potencialidades da animação, mas pouco. Disney foi muito mais longe do que eles. Primeiro eliminou os saltos no filme, e depois fê-lo cantar (Aprendam a canção, Quem tem medo do Lobo Mau?) e deu-lhe cor. A biografia publicada por Neal Gabler em 2007 refere que o chão do estúdio de Disney estava todo marcado com pigmentos de aguarela colorida, que foi instalado um espectrofotómetro para os medir com precisão e que havia 1200 cores diferentes nas prateleiras.
“Praticamente todas as ferramentas que utilizamos actualmente – disse o grande Chuck Jones, que alcançou fama com as suas personagens dos Looney Tunes, como Bugs Bunny, Wile E. Coyote e Porky Pig – tiveram a sua origem nos estúdios da Disney.”

2. Disney implantou a sua arte nas nossas cabeças
Não há muitos artistas que tenham essa misteriosa capacidade. Warhol tinha-a. Ia a um supermercado, inspeccionava 10 mil produtos e depois saía para a rua com uma lata de sopa que não conseguíamos tirar da cabeça. Está lá, inamovível. Pluto, o Grilo Falante e Tambor estão na mesma prateleira.

3. Disney dava-se com os surrealistas
Por vezes ele próprio era um surrealista. Disney partilhava com eles o gosto pelo tétrico, a pesquisa do inconsciente, do sono e a justaposição do irracional que reconhecemos nos melhores dos surrealistas. Não admira que Salvador Dalí tenha ido trabalhar com Disney. “Na noite em que nos encontrámos quase não consegui dormir”, escreveu o catalão, que não era facilmente impressionável.

O episódio mais surreal de Disney é aquele em que Dumbo, acidentalmente bêbado, se emaranha numa alucinação de estridentes trombones, elefantes cor-de-rosa (claro), bolhas mutantes e infindáveis regressões. “Nunca vi nada que lhe chegasse perto – escreveu Otis Ferguson no jornal New Republic – nem vocês viram, porque não houve nada que o conseguisse.”

Outra qualidade surrealista da sua animação era o animismo. Ambos os mundos têm as suas raízes na palavra latina animare (“dar vida a”, “encher com fôlego”), e Disney, algo assustadoramente, soprava pedaços do seu self para dentro dos bancos em forma de sapos dançantes, hipopótamos e vassouras a marchar. É esta antiga magia que nos leva, através dos contos de fadas e de Pigmalião, para o passado, até aos tempos imemoriais em que os espíritos habitavam as poças e as rochas. “Ele insistia em que se uma árvore era tímida, tinha que agir como se fosse tímida”, escreveu Ward Kimball, um dos seus técnicos de animação. “Se era uma árvore má, tinha que se comportar como uma malvada.”
As ondas na sequência da tempestade em Pinóquio não são apenas água, são também monstros. Tive que fugir deles a correr pela coxia da sala de cinema quando era miúdo.

4. Disney confraternizava com os seus artistas especializados em desenhar animais
Ele era um deles, mesmo que antropomorfizasse descaradamente.
Disney costumava mimar a sua arte quando dava indicações para a sua concretização. Quando queria que os seus artistas animassem um cão, Walt transformava-se nesse cão em frente dos seus olhos. “Ele imitava as expressões do cão, olhava de um lado para o outro, levantava uma sobrancelha e depois a outra à medida que tentava resolver as coisas. Ficávamos com a noção total da ideia que ele tinha. Ficávamos a saber exactamente o que ele queria”, recorda o animador Dick Huemer.
Bambi é tanto uma pessoa como um veado, mas parece realmente um veado. Enquanto o criava, o estúdio Disney reuniu todas as filmagens de veados que conseguiu encontrar, e filmou ainda mais no estado do Maine, e arranjou um veado morto para a sua escola de artes.

5. A boa educação manda admiti-lo nos museus
Não esqueçamos que Disney fez a sua quota-parte pela educação artística. Reconhecia e escolhia o que tinha a melhor qualidade, tal como os museus devem fazer. Treinou centenas de artistas (dado que cada segundo de filme da Disney exigia 17 fotogramas desenhados à mão). Depois de tudo isto, seria uma indelicadeza não o aceitar no meio museológico.

6. O tempo deu-lhe razão
Vá-se a qualquer exposição de arte contemporânea na moda, e percebe-se o que eu quero dizer. Por todo o lado estão ecrãs iluminados, imagens em movimento, efeitos sonoros bem gravados, construções em plástico. Nos museus sérios isto não teria sido admissível quando Disney estava no seu auge, mas agora é. As velhas regras fora quebradas, o multimédia está in, vale tudo.

Toda a arte relembra os seus antecedentes. A arte deste nosso século XXI, eléctrica, de colaborações, brilhantes, barulhenta, traz consigo um passado tão distinto quanto o da pintura. As obras mais vanguardistas do nosso tempo estão a fazer um favor a Walt Disney, legitimando retrospectivamente a arte que ele fez no seu tempo.

in Ípsilon

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